Obsessão
Cuidado com o que deseja.
Brincar de pedir desejos, arriscar supersticiosamente algum jogo, fingir ser cético e ainda assim deixar se levar pelo pedido para a estrela cadente, foram situações responsáveis por arrancar em tom de brincadeira pedidos de “que ela/ele me ame como ninguém mais nesse mundo!”. Claro é na vida real, longe da fantasia, conta-se apenas com a boa lábia e a sorte para a realização de desejos.
Mas, em alguma ocasião, já se pensou em como seria se um desejo desesperado por companhia se realizasse? O que resultaria disso? Pode-se pensar na alegria, satisfação, o fim de uma espera, só que nessas condições, o desejo move-se apenas de um lado, ignorando a individualidade. É um vestígio da eterna tentativa do ser humano de brincar de Deus e corrigir um erro do mundo, um incômodo pessoal, que não deveria existir - caindo na tirania nítida dos antigos deuses, controladores de toda a vida dos homens.
Pensar em como isso seria foi o feito do filme Obsession (2025, Curry Barker). A história começa simples: Bear, trabalha com sua amiga Nikki por quem é perdidamente apaixonado, mas não tem coragem para dizer a ela seus sentimentos. Passa horas vendo as redes da garota, ensaia declarações melosas, mas é extremamente tímido e não consegue reagir a sua presença. Um dia, compra em uma numa loja de artigos new age um graveto que ao ser quebrado concede ao dono um desejo. Apenas um por pessoa. Sem voltas e sem segunda chance. E o que deseja é: “que ela me ame como ninguém mais nesse mundo”. Imediatamente Nikki muda. Passa a ter uma devoção insana pelo rapaz.
Mil maravilhas? Talvez nos primeiros dias. Mas desde o começo coisas estranhas acontecem. Surge um sentimento de possessão, um comportamento estranho, ela chega até a se machucar em momentos de raiva por achar que ele não a ama. Entre ataques violentos, situações bizarras, algumas mortes, o final é trágico.
O que chamou atenção foi o fator da realidade inviolável da pessoa sendo esmagada - ao ponto de perceber que, no filme, a verdadeira Nikki estava aprisionada dentro de si enquanto outra Nikki vivia a vida pedida por Bear. Todo sonho de controle de alguém gera isso. Relacionamentos abusivos são assim. Uma busca por retirar do outro sua autodeterminação. É uma tirania. E o problema escala para um patamar no qual não era esperado. Todos esses desejos são cegos, resultado de desejos e sentimentos irrefletidos, pulsões irracionais. Tornam a pessoa cega para consequências e descartam o arcano que é a pessoa em toda sua profundidade.
A obsessão não era a adquirida pela moça, era do rapaz. Sem a devida coragem para encarar a vida e suas possibilidades negativas, viva em sonhos, e na primeira oportunidade de ter o que desejava pela magia - ou uma força exterior capaz de lhe dar algo pelo qual deveria lutar, considerando também a derrota - , agarra-se a isso desconsiderando o inferno que surge de toda imposição totalitária. A busca por apagar a pessoa sempre causa danos, mais cedo ou mais tarde.
Essa história lembrou-me de uma das histórias contidas no quadrinho de Neil Gaiman, ilustrado por Milo Manara em Noites sem Fim. Contava sobre uma mulher que desejava um homem e se encontra com o perpétuo Desejo. Este, conhecedor dos desejos humanos como ninguém mais, diz: “Devo alertá-la: conseguir o que deseja e ser feliz são duas coisas bem diferentes”. Interessante observação, haja vista quantos são os buscadores de fama, dinheiro e poder marcados pela infelicidade. Ou mesmo de pessoas comuns cuja conquista de algo pelo qual dedicaram a vida também não lhe deram a satisfação esperada. O desejo, principalmente aqueles advindos da libidos (desejos do sentido, da posse e do domínio), não são saciados, porque tudo nesse mundo é vaidade.
E não é de hoje a reflexão dos homens sobre o cuidado com o que se deseja. Esopo, em uma de suas fábulas, O velho e a Morte, foi cômico ao tratar do tema, mostrando como não pensamos muito ao pedir por algo em vários momentos. O texto é curto, reproduzo-o abaixo:
Certa vez, um velho seguia um longo percurso carregando a lenha que cortara. Sob intensa fadiga, pôs o fardo no chão e ficou invocando a Morte. Quando ela surgiu e perguntou por que motivo ele a invocara, o velho respondeu: “Para que você levante do chão o meu fardo!”.1
O bom humor de Esopo mostra como é preciso tomar cuidado com o que se quer, mostrando como, mesmo na última hora, é importante retomar a sanidade para seguir a diante.
Ainda entre lembranças2, cheguei a Shakespeare, numa frase posta em circulação há um tempo por aparecer na série Westworld (2016): “Esses prazeres violentos têm fins violentos”. Nada mais certeiro ao pobre Bear e a Nikki. Aquele, tomado por seu impulso pelo prazer da posse, coloca-o em prática; esta sofre pelo desejo alheio - e, como efeito colateral (todo desejo irracional o tem) propaga a violência ao seu fim.
Trailer do filme para interessados:
Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 514, disponível em: https://blogdafabula.org/tag/morte/
O engraçado é como, ao final do filme, pensando no resultado do desejo pedido, lembrei de outro filme, o Ruby Sparks (2012, Valerie Faris e Jonathan Dayton). A premissa é diferente, em resumo, um escritor frustrado escreveu sua mulher ideal e ela simplesmente surgiu na sua casa num dia seguinte, vestindo só uma de suas camisas enquanto preparava docilmente o café da manhã para ele. É um comédia romântica, mas o clímax do filme tem um ar de terror muito próximo com Obsession.
Deixo o trailer:



