B-Sides
“Hey angel fly over and bless me”
“You move like I want to
To see like your eyes do
We are downstairs where
No one can see
New life breakaway”
Deftones, Digital Bath
Estava buscando um disco para ouvir antes de começar um trabalho e, antes da lista chegar onde queria, vejo no caminho outro álbum. Não me detive, mas fui tomado de uma recordação de como aquelas músicas compuseram um contexto pretérito muito específico, ainda hoje, sempre que elas tocam em minhas coletâneas, volto para um lugar e tempo específicos. Coloquei para tocar. Não segui o trabalho em questão e comecei a escrever.
As tardes de trabalho entre os anos de 2006 e 2007 começavam com uma rotina bem particular. Entrava numa sala abarrotada de livros e estantes em desordem, naquele momento sob minha responsabilidade, e passeava pelo conjunto livresco em busca de coisas interessantes. Depois de alguns minutos, dirigia-me para a mesa de trabalho. Um velho computador desktop ainda com mouse de bolinha, branco no passado, creme naqueles dias devido ao passar dos dias, era ligado. Ao iniciar seu funcionamento dois programas eram abertos: o gestor da biblioteca futura a qual estava dando forma e o Windows Media Player. Nos primeiros dias de trabalho com os livros a serem organizados na biblioteca das Irmãs Missionárias dos Pobres, de Pirenópolis-GO, localizada na Aldeia da Paz (casa de acolhimento de senhoras em situação de vulnerabilidade e creche para necessitados), encontrei um conjunto de caixas de som, logo incorporados na máquina e no outro dia levei num pendrive alguns álbuns recém-baixados para acompanhar o processo de limpeza, catálogo e disposição dos livros em seus devidos lugares.
Naquele ínterim, por muitas vezes a tarde de serviço começou ao som de “Savory” da banda Deftones, presente no disco B-sides and Rarities (2005). O local onde ficava era na primeira sala de um longo corredor escuro com outras salas raramente usadas no período em que trabalhava. Podia dar-me ao luxo de ouvir minhas músicas sem incomodar ninguém (e, claro, nem o decoro e menos ainda o aparelho permitiam um volume alto). O trabalho tinha pausas “regulares” quando encontrava alguma coisa chamativa o suficiente para me travar atenção. Então, embalado pelo disco em questão (acho que foi o único álbum completo que levei para para lá) lia uma coisa aqui, outra ali, voltava à catalogação e limpeza, organizava mais uma coisa aqui e outra ali. A meta de trabalho do dia era colocada por mim mesmo, a superiora havia me confiado o trabalho para que pudesse realizá-lo como achasse melhor. (Houve um período no qual, ficava por lá umas três horas e depois saia para outro trabalho na escola de música onde ensinava instrumentos de sobro de bocal - bombardino e trompete basicamente).
Depois de muito tempo ouvindo o disco em questão, fiquei um pouco enjoado dele. E, noutros tempos, mesmo agora quando tocam aquelas músicas, entro de novo meio que involuntário na sala com o forte cheiro de um conjunto de livros acumulados, um pouco do aroma de poeira, temperado com alguns ácaros combatidos com produtos de limpeza. Agora, quando estou digitando essas letras o álbum é reproduzido no streaming e finaliza a versão de “Simple Man” da banda. Sinto-me como se lá estivesse, pegando as pilhas de livros e separando quais seriam aqueles manuseados no dia. O aroma da velha sala parece voltar para o meu gabinete atual – talvez possível pelo meu próprio acúmulo de livros – e o conjunto de estranhos sentimentos de incertezas sobre o futuro a ser seguido, condição imperativa daqueles anos, parecem ainda vivos. Isso pode ser devido ao fato da própria condição dramática da vida, incerta sempre e mesmo com os melhores projetos esboçados. Nunca sabemos onde, quando e como terminaremos.
É engraçado como encontrei ali livros responsáveis por importantes decisões futuras. Numa ocasião particular, a Irmã Maria de Deus (a superiora) veio trazer um conjunto de obras da biblioteca pessoal do Pe Mata (sacerdote português que fundou a casa de acolhimento e creche) para que ficassem registrados no sistema. E ao manuseá-los, tinha em minhas mãos o volume IV da História a Igreja do Daniel-Rops, A Igreja da Renascença e da Reforma. Quando a Irmã viu meu interesse naquele livro específico, abriu a capa, escreveu uma coisa e me deu. Detalhe ainda mais importante foi que, depois foi me presenteando com todos os demais volumes da coleção. Fora isso, achei entre os demais um tal de Amigo de Dios de alguém conhecido por ser o fundador do tal Opus Dei, famoso na época por causa de outro livro, O Código DaVinci, que foi minha primeira investida no idioma do outro lado das terras ibéricas. Ali também houve um primeiro encontro com a filosofia quando ganhei o Noções de História da Filosofia de autoria do Pe Leonel Franca. Todos esses livros me acompanharam por muito tempo.
Agora começou a tocar “No Ordinary Love”. E já no fim desse exercício de recordação (o que lembra o velho Ortega, ser a ocasião onde as coisas passam novamente pelo coração), acho possível afirmar que nada daquilo foi uma simples situação ordinária qualquer. Daqueles livros, muitos pude eu ler, descobrir mundos novos, maravilhar-me e olhar para um horizonte a ser desbravado com o sentimento de “Meu Deus! O mundo é muito maior do que está circunscrito a essa cidade, aos seus assuntos, conversas e ocasiões!”.
O que parecia um emprego ordinário, a forma de um jovem conseguir seus trocados, mostrou-se como o lado B de alguns eventos carregam forças importantes em suas sombras. Na verdade, não eram sombras, mas o lugar de onde as fagulhas do que futuramente seria um grande fogo.


